Mais uma vez ouvimos alguém dizer em Loja que nosso o Rito Schröder é um Rito Humanista e que nada tem de esotérico.
Por que esta insistência, humanismo x esoterismo? Tenho certeza que a maioria dos IIr., procura na Maçonaria, mais o esoterismo que o humanismo. O humanismo já o praticamos em nossa vida cotidiana; com nossos familiares, amigos, vizinhos, já que somos todos homens de bem, de moral elevada. Se não o fossemos, não estaríamos aqui, não teríamos sido admitidos.
Então, entramos na Ordem para praticar o humanismo? Também, mas não só isso.
Como bem disse um Ir: se a maçonaria não é esotérica, então o que é? O que fazemos aqui?
Sobre o esoterismo já falamos em trabalho anterior; então temos que ver o que é este tal de Humanismo.
Nosso
ritual fala em humanitarismo, que é um pouco diferente de humanismo. No caso, o
humanitarismo significa filantropia. E filantropia, segundo os dicionários,
significa amizade do homem pelo homem. Vem de filo = amigo e tropos = homem.
Segundo Platão filantropia é o ato de benevolência para com o homem.
Mas
não precisamos entrar para a Maçonaria para praticarmos humanitarismo/filantropia.
Isto o fazemos desde sempre, em maior ou menor grau.
Mas
o que é o Humanismo?
O
Humanismo, etimologicamente, tem dois significados:
1)
é uma corrente literária europeia do século XII que vem até o século XIX, cujo
maior exemplo é o Renascimento, e que se mantém com alguma
expressividade
até o século XX.
2)
Mas também é um movimento filosófico.
Este
humanismo filosófico, talvez seja o humanismo que Schröder tinha em
mente
quando criou nosso Rito, pois ele se encontrava no centro mesmo desta corrente,
e provavelmente foi influenciado por ela.
Senão
vejamos:
Este
Humanismo filosófico é dividido em quatro linhas de estudo.
1-
Na primeira, o homem é reconhecido como uma unidade e uma totalidade.
Nele
o homem é o centro da criação; e sua conformação dual – alma e corpo – lhe confere
o direito a explorar e conhecer a natureza e lhe dá direito à liberdade; exalta
a importância da ação sobre a contemplação e o remete para o estudo das leis da
natureza. Em resumo, o homem teria todos os direitos exclusivos sobre a
natureza.
Aquela
famosa expressão: O senhor da criação.
2- Nele o Humanismo caracteriza o homem como um ser histórico, com passado, presente e futuro.
3- O homem se diferencia e se caracteriza por sua consciência e por criar artes, além de ter uma consciência histórico-crítica e uma tradição.
4- Este item é o mais importante para nós, pois vê o homem “como medida de todas as coisas.” Dentro deste conceito, muitos filósofos divergem, achando uns que o homem físico domina o “ser”, o homem espiritual; enquanto outros acreditam que o ser espiritual domina o físico, o homem material. O homem físico seria conformado pelo “ser” – o espírito, a alma. Os dois humanismos consideram o homem dual, mas, no segundo, existe uma divisão, entre os que creem que, o material domina o espiritual; outros acreditam que o espiritual é que comanda o físico.
O
filósofo alemão Martin Heidegger – considerado o maior filósofo do
séc.
XX - defende que este domínio é exercido pelo ser, e não pelo homem, com o que
concordamos, já que é o ser que dá vida e mantém o homem. O ser existe antes do
homem físico, pois é ele que dá vida e forma ao corpo material.
Mas
o filósofo grego Protágoras, que cunhou a expressão “o homem é a medida de
todas as coisas”, deveria ter em mente uma unidade - o homem corpo e alma -
quando cunhou esta expressão. Filósofos posteriores, principalmente dentro do
Iluminismo, tenderam a separar o homem do seu espírito, dando excessiva valoração
ao físico, à matéria, à ciência. Provavelmente não entenderam a colocação de
Protágoras, mas Heidegger o entendeu, assim como o místico Swedenborg quando
dizia que “o universo tem a forma de um homem”, ou seja, “assim é em cima como
o é embaixo”, a conhecida expressão fundamental do esoterismo.
O
filósofo Nietzsche disse algo mais ou menos assim; “O mundo vem a nós
desejoso
em se transformar em símbolo.” Nietzsche não era maçom, era apenas um gênio e
captou todo o princípio do simbolismo, pois a maçonaria é feita de símbolos e
signos, signos que se transformam em símbolos, assim como o humanismo. Por isso
temos que entender este humanismo de Schröder como um símbolo, o do homem como
a medida de todas as coisas, porque o que está em cima é como o que está
embaixo, e não fazemos maçonaria, esoterismo, religião,
para
nossos irmãos menos evoluídos da natureza, mas para nós, homens.
Como o esoterismo está dentro de cada um, de cada homem, ao cuidarmos bem do homem, lhe estamos dando a possibilidade de desenvolver-se
espiritualmente.
Criamos o “clima” para o aprimoramento, seja através da egrégora, seja através
da evocação e do cerimonial com seus significados ocultos (esotéricos), que
devido ao nosso despreparo desconhecemos; mas que vamos aprimorando com o
tempo, a dedicação e o humanismo existente na Loja e na Fraternidade, pois
“onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome...”
Então
o humanismo que Schröder queria, poderia ser este humanismo do homem como
medida de todas as coisas e que se desenvolveria a partir de dentro dele mesmo,
mas alicerçado no apoio espiritual da egrégora maçônica da Loja, pois cada qual
deveria procurar seu desenvolvimento interno, já que cada um é responsável por
si. E isto pode ser explicado pela definição do Templo que representaria o
corpo humano, como diz Jorge Adoum. Os símbolos e signos do Templo ficariam
gravados no subconsciente do maçom, pela visão, pela vivência e repetição das
palavras e dos atos simbólicos da cerimônia maçônica; pela Sessão ritualística.
Seria um humanismo que levaria ao esoterismo na medida que o Ir., se aprofunda
e se compenetra dos símbolos e atos, dos signos e falas do cerimonial.
A
fraternidade que exala do humanismo criaria uma aura amorosa, fraternal, que encheria
de satisfação, alegria, confiança ao Irque participa da cerimônia. Por isso a
frequência às Sessões, a repetição das palavras e gestos, aparentemente sem significado,
terminam por elevar o espírito e nos leva à compreensão dos símbolos e de seu
significado oculto: levariam ao ESOTERÌSMO.
A
coisa é sutil, mas parece que funcionaria assim.
Então
não há um esoterismo escrito, mas é criado um clima que leva o adepto, se
quiser, para o caminho do auto-desenvolvimento espiritual. E aí só pode ir pelo
esoterismo, o qual se daria pela busca e pesquisa individual.
Talvez
este seja o grande “lance” de Schröder, pois ao simplificar o cerimonial, deixa
ao adepto as possibilidades de criar conforme a sua capacidade e o seu
esoterismo, e assim buscar a sua evolução, já que cada um deve evoluir por si e
conforme sua capacidade.
As
características do Rito, sendo HUMANISTA, SIMPLES E FRATERNAL, já nos deixa
entrever o objetivo de Schröder, pois as expressões humanista e fraternal,
podem ser empregadas quase com o mesmo sentido, o que seria uma redundância.
Humanista seria uma fraternidade universal, enquanto a fraternidade seria um
humanismo específico, pessoal.
De
qualquer forma, como existe pouca ou quase nenhuma informação sobre os
objetivos de Schröder a especulação corre solta. Mais um motivo para crer que este
humanismo é o humanismo do homem como medida de todas as coisas; como a
representação do templo maçônico etc. Todos eles símbolos esotéricos. O esoterismo
estaria no homem e não nos símbolos e signos. Estaria dentro do
homem
e a ele caberia despertar e encontrar o significado e interpretá-los e utilizá-los
para seu desenvolvimento interior, esotérico.
Seja
ou não esotérico o nosso Rito, nem por isso deixaremos de pesquisar e
aprimorar
nosso conhecimento. Não ficaremos apenas no ritual e na repetição de falas e
gestos aparentemente sem significado. Digam o que disserem os teóricos, cabe a
cada Ir., buscar seu próprio conhecimento através do estudo, proporcionado pelo
estímulo e pela egrégora da Loja, principalmente da Sessão ritualística. Cabe a
cada Ir., encontrar o seu esoterismo. Isto provavelmente é o que Schröder pretendia
quando resolveu “limpar” os diversos rituais existentes em seu tempo para criar
um Rito enxuto e que valorize o homem, mais que o ritual e a pompa.
Autor:
ENIVALDO CICHELERO
27/10/2005
Nenhum comentário:
Postar um comentário